Amar é estado de espírito, disse Mário de Andrade. Verbo intransitivo.
Você não ama alguém, alguma coisa, um lugar. Ama e pronto. Ao amar, está apto a amar tudo. O que há de ruim, de perverso, de dor, você perdoa. Perdão é extensão de amor. Se estamos falando do homem da nossa vida, da mulher da nossa vida, dos nossos pais, dos amigos, da feijoada da Nice, da cerveja no Centro Acadêmico, daquele bolinho de bacalhau que a gente morre de vontade de comer mesmo sabendo o que nos espera depois, serve. Amamos e pronto. Sem razão, sem motivo, sem distinção.
Os filhos nascem e o amor muda completamente. Amor calmo, abnegado, desisteressado e muito apegado. O grande ensinamento que eles nos trazem deve ser esse: desapego.
Sim, porque um dia seu estômago rejeita água; seu nariz rejeita seu próprio cheiro; sua pele mais parece a de um adolescente; sua barriga cresce; batem dois corações dentro do seu corpo; às vezes, é raro, batem até mais do que dois. Essa magia de dois corações é tão linda e tão angustiante. Chega a hora de parir. Ela sempre chega. Quando a barriga já é parte natural do ser; quando mudamos o perfume; quando aprendemos a beber água tônica quente chega a hora da partida, da despedida.
Parto é uma despedida. Se vai parir, despeça-se do outro coração. Despeça-se daquele pequeno coração que bateu acelerado dentro de você. Neste momento, já não é mais seu. Nunca foi. É difícil entender que algo vivo dentro do seu corpo não é seu. E não é.
Quando este coração pula de dentro da barriga, uma nova vida começa com todas as suas implicações. Uma vida que não é sua. É apenas sua responsabilidade até que possa assumir-se como tal.
Engraçado é que crianças têm uma fase em que não querem se desfazer das próprias fezes. Imagine só essa criança crescendo e tendo um filho? Se um dia, ela não gostava da sensação que liberar o que saia de inaproveitável do seu corpo, como vai poder liberar o que seu corpo produziu de mais belo e perfeito: um coração?
Será que alguém pode entender a dor de uma mãe quando ela entende que seu filho não é seu, é dele mesmo?
Minha mãe deve ter sofrido cedo porque sempre fui muito independente. Há dias em que acho que ela ainda não saiba que não sou dela, sou de mim mesma, já que se pega tentando escolher coisas por mim até hoje.
Já tem uns dias que descobri que meu bebê não é meu e dói.
Dói esse negócio de ter que aprender a amar. Amar desapegado.
sábado, 22 de março de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
Choro.
Chorei muito. Algumas vezes, por mim. Outras, pelos outros. Chorei ao ver na dor dos outros a minha própria dor. As minhas não são os maiores do mundo. São apenas grandes demais para mim. Fraca? Dispenso os rótulos. Se fosse escolher um, seria "delicada". No sentido mais Lígia Fagundes Telles possível. Como porcelana chinesa: tão bela de se observar; quebrável ao tocar. A dor toca. Toda dor me toca. E como toca...
terça-feira, 11 de março de 2008
Tudo começou assim:
Março.
Manhã de quarta-feira.
Faculdade às 8.
Estudar às 10.
Almoçar às 12.
Nunca tive essa disciplina toda e por isso, às 10 estava indo para casa, com uma amiga.
Passava, obrigatoriamente, pela praça central do campus e a conversa estava animada. Olhava para o chão e ria. Levantei o rosto e vi alguém. Ele passou bem ao meu lado. Camiseta do Pantera. Eu disse: "Olha só, meu número". Não me ouviu. Ou fez que não ouviu. Ele não lembra mais disso, já faz oito anos. Eu ainda me lembro. Parece que foi ontem.
Das matérias da faculdade, não fixei nada. A camiseta do Pantera não vai sair jamais da minha cabeça. Nem aquela manhã de quarta-feira em que passei pelo amor da minha vida.
Manhã de quarta-feira.
Faculdade às 8.
Estudar às 10.
Almoçar às 12.
Nunca tive essa disciplina toda e por isso, às 10 estava indo para casa, com uma amiga.
Passava, obrigatoriamente, pela praça central do campus e a conversa estava animada. Olhava para o chão e ria. Levantei o rosto e vi alguém. Ele passou bem ao meu lado. Camiseta do Pantera. Eu disse: "Olha só, meu número". Não me ouviu. Ou fez que não ouviu. Ele não lembra mais disso, já faz oito anos. Eu ainda me lembro. Parece que foi ontem.
Das matérias da faculdade, não fixei nada. A camiseta do Pantera não vai sair jamais da minha cabeça. Nem aquela manhã de quarta-feira em que passei pelo amor da minha vida.
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